Por que o Brasil não fabrica mais moedas quando precisa de dinheiro?

18/08/2011 21:41

 

É uma tentação, né? Afinal, cada nota de 1 real custa só nove centavos para ser produzida... Bem, teoricamente, até daria para o governo tentar essa malandragem - isso se os burocratas conseguissem enganar o mercado financeiro e o Congresso Nacional, que possuem instrumentos para descobrir quando o governo está imprimindo dinheiro "do nada" (a gente explica como funcionam esses controles na ilustração ao lado). Mas, no final das contas, fabricar mais moedas seria um problema, não uma solução. A razão é simples: o excesso de grana em circulação elevaria os preços das mercadorias e detonaria o equilíbrio da economia. Em outras palavras, sair criando dindim gera inflação, a inimiga número 1 de dez entre dez economistas. "Se o segredo fosse só imprimir moeda, não haveria países pobres", diz o economista Carlos Alberto Ramos, da Universidade de Brasília (UnB). Na economia, é necessário que a balança da produção de bens de um país e a quantidade de dinheiro fique sempre equilibrada. Uma economia saudável cresce porque o volume de mercadorias fabricadas e a quantidade de dinheiro aumentam juntos. Agora, se o governo resolve fabricar mais moeda enquanto a produção permanece a mesma, os preços sobem! Um exemplo bobinho ajuda a entender essa relação: suponhamos que o botijão de gás custe 10 reais e que cada trabalhador receba uma ajuda também de 10 reais para comprá-lo. Se o governo resolver dobrar o valor da ajuda - imprimindo mais grana, por exemplo -, esse montão de dinheiro novo na praça poderia até impulsionar a economia, mas só por um curto prazo. Logo depois, os comerciantes percebem que o povão está com mais dinheiro e aumentam o preço do gás. "As pessoas até podem ser enganadas por um tempo com esse truque. Mas, se ele for repetido, logo se percebe que o aquecimento da economia é artificial", afirma o também economista Marcelo Moura, da faculdade Ibmec de São Paulo. Por causa disso, hoje em dia a Casa da Moeda acaba imprimindo dinheiro mais para substituir as notas velhas e rasgadas que para injetar grana extra no mercado. Mesmo assim, é um volume considerável de dinheiro que vai para a rua todo ano: em 2003, 964 milhões de cédulas foram destruídas e trocadas por outras novinhas.

Me dá um dinheiro aí Para imprimir mais grana, o governo teria que enganar o mercado e o Congresso Nacional

1. Hoje em dia, um país só imprime dinheiro para substituir notas antigas ou se a economia crescer — aí, as empresas vão precisar de mais notas para pagar salários, comprar equipamentos etc. Mas vamos supor que algum governante quisesse fabricar ilegalmente mais grana para turbinar a economia. Primeiro, seria preciso convencer os técnicos da Casa da Moeda, órgão responsável pela emissão de notas no país, a topar a malandragem. Teria que ser uma impressão quase secreta, e ninguém poderia ficar sabendo

2. A dificuldade seguinte seria colocar o dinheiro na praça. A cada trimestre, a Casa da Moeda é obrigada a publicar um relatório, chamado de Programação Monetária, informando a quantidade de notas impressas no período. Como o relatório fica na internet, publicado no site do Banco Central, algum investidor poderia sacar a falcatrua

3. Os dados do relatório poderiam ser mascarados com a divulgação de um valor menor, por exemplo. Mas, para gastar a grana extra, o governo precisaria incluí-la no seu orçamento anual — documento que especifica e libera os gastos do governo. Como o orçamento é acompanhado de perto por deputados e senadores, seria quase impossível furar esse cerco

4. Se mesmo assim o dinheiro ilegal conseguisse chegar às ruas, a saída mágica seria transformada em dor de cabeça. O primeiro perigo do excesso de dinheiro é a inflação. O raciocínio é simples: antes da enxurrada de dinheiro, 1,50 real comprava um pão. Com mais grana na praça para a mesma quantidade de pãezinhos produzidos, sobraria mais moeda para pagar cada pão. Logo, o produto subiria para, por exemplo, 3 reais, depois para 10 reais, e assim por diante

5. Os problemas da grana extra continuariam. Como a moeda perderia valor, o poder de compra dela ficaria menor e a confiança na economia desabaria. Isso já aconteceu, por exemplo, na Alemanha. No período entreguerras, de 1918 a 1939, o marco ficou tão desvalorizado que eram necessários carrinhos de notas para comprar um simples sorvetinho