A física que você não vê

A física que você não vê
Esta é para você que tem alergia a equações e teoremas: conceitos centrais da física, como a Teoria da Relatividade, estão espalhados pela literatura, música, cinema e artes plásticas.
 

Você provavelmente já se referiu a uma pessoa dizendo que ela tem muita energia ou que está fora de órbita ou que tem uma personalidade magnética. Sempre que isso acontece, você está, sem perceber, utilizando conceitos da física que migraram dos laboratórios e dos livros para a boca do povo. No caminho, evidentemente, os termos perderam parte do seu rigor. Ou seja, tiveram seu significado estritamente científico enfraquecido e, em troca, adquiriram conotações mais coloquiais. Como resultado, dá para dizer que as descobertas da física acabaram também enriquecendo a linguagem, a literatura e, por extensão, toda a cultura.

É um fato: embora nem sempre de maneira explícita, os conceitos centrais da física povoam a filosofia, a música, o cinema e as artes plásticas. Em especial a Teoria da Relatividade que é, de longe, a idéia científica mais influente fora dos laboratórios e do mundo científico. Vários quadros do desenhista holandês Maurits Escher, por exemplo, representam as possíveis formas geométricas do universo segundo as previsões das equações de Einstein. No desenho animado Submarino Amarelo, protagonizado pelos Beatles, John Lennon, logo no início da história, dá uma pequena aula das concepções da relatividade. E em um das telas mais badaladas do pintor espanhol Salvador Dali, Corpus Hipercubus, a cruz de Cristo é de fato um cubo em quatro dimensões – em menção, segundo diversos ensaístas, à idéia einsteiniana de que o tempo é uma espécie de quarta dimensão.

“Nota-se a presença direta ou indireta da Teoria da Relatividade em praticamente todos os grandes autores do século, de Marcel Proust a James Joyce, de William Faulkner a Jorge Luís Borges”, afirma o físico e astrônomo americano Delo Mook, do Dartmouth College. A característica mais marcante da relatividade, segundo Mook, é a afirmação de Einstein de que não existe um tempo único, absoluto, como se pensava na física do século passado. Em vez disso, cada pessoa, ou cada lugar, conta as horas e os minutos à sua maneira, com um ritmo que não é o mesmo para todos. Os relógios dos satélites, por exemplo, só por estarem em órbita, sob menor atração gravitacional, atrasam sistematicamente em relação aos que estão na superfície terrestre. Segundo Einstein, ainda, um sujeito que viajasse próximo à velocidade da luz envelheceria muito mais lentamente do que se estivesse na superfície da Terra.

O americano William Faulkner, afirma Mook, “conhecia a teoria de Einstein e se baseou nela para armar sua primeira grande novela, O Som e a Fúria, de 1929”. De fato, na obra não há uma estrutura narrativa única e absoluta, como acontecia até então: a história é contada por quatro personagens, que a vêem cada um a seu modo. “É uma espécie de Teoria da Relatividade aplicada à literatura”, diz Mook, cujas análises detalhadas sobre a presença de conceitos da física na vida diária foram publicadas, em 1999, no livro Inside Modernism – Relativity Theory, Cubism, Narrative (Por Dentro do Modernismo – Teoria da Relatividade, Cubismo, Narrativa).

O argentino Jorge Luís Borges também viu na relatividade, segundo Mook, um meio de construir o enredo fantástico de O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam, de 1941. Trata-se de uma novela policial curta na qual se descreve um assassinato espantoso, que é, na verdade, uma mensagem codificada – durante a II Guerra Mundial, um espião nazista chinês combina com os generais de Hitler que, se matasse um certo homem, em Londres, isso seria sinal de que deveriam atacar a Inglaterra. Borges faz várias alusões a Einstein: a vítima é um sinologista chamado Stephen Albert e o alvo do ataque é uma cidade chamada Albert. Nas últimas linhas da novela, Stephen cruza com seu perseguidor (que não conhecia até então, nem suspeitava de suas intenções) e conta que leu e estudou um livro escrito pelo próprio avô do chinês, Ts’ui Pen, intitulado, isso mesmo, O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam. E diz que, nesse texto não há um só tempo, mas “uma série infinita de tempos”, que, ao se entrelaçarem, criam um número infindável de enredos possíveis. “Na maior parte deles, nós não existimos”, afirma Stephen. “Em outro, ao cruzar o jardim, você me encontra morto.” Ou seja: tudo a ver com as idéias relativistas de Einstein, para não dizer que antecipa a teoria dos universos paralelos de David Deutsch, físico israelense que a Super entrevistou em agosto do ano passado.

“A verdade é que artistas e cientistas, na primeira metade do século, estavam tentando resolver seus problemas de acordo com idéias que, embora fossem formalmente muito distintas, obedeciam a uma lógica parecida”, afirma Mook. A abolição da idéia do tempo único, trazida pela relatividade, por exemplo, corresponde, na literatura modernista, à decadência dos enredos lineares e das narrativas únicas. Algo semelhante se observa nas artes plásticas, especialmente no cubismo, que subverteu a idéia de perspectiva ao mostrar uma mesma figura, ao mesmo tempo, de dois ou mais ângulos diferentes. O quadro Les Demoiselles D’Avignon, realizado pelo espanhol Pablo Picasso, em 1907, foi uma das primeiras manifestações dessa transformação estilística momentosa e altamente influenciada pelas transformações que estavam acontecendo no mundo científico.

Na interpretação de Mook e de diversos outros estudiosos do paralelismo e da influência recíproca entre física e arte, o fenômeno não significa necessariamente que pintores (ou escritores) tivessem conhecimento da ciência. É diferente do que hoje acontece com escultores como o americano Ken Snelson, que procura, inclusive, usar equipamentos científicos.

“No início do século, as mudanças ideológicas, as novas teses e os novos jeitos de ver e entender o mundo estavam no ar e foram captadas independentemente por artistas e cientistas”, afirma a historiadora da arte Linda Henderson, da Universidade do Texas. Ela mesma ajudou, há alguns anos, a derrubar a interpretação de que Picasso tivesse se inspirado diretamente na relatividade, como se chegou a pensar nos anos 50. De fato, não há nenhum indício de que Picasso tenha lido artigos científicos com esse fim. Mas ela diz que, como Faulkner e Borges, o pintor e escultor francês Marcel Duchamp, procurou conscientemente o apoio da física para realizar as mudanças que tinha em mente.

Segundo Linda, Duchamp estudou a eletricidade e outras disciplinas científicas na expectativa de ampliar seu universo temático. Da análise criteriosa que fez de Duchamp, Linda tirou a conclusão sensacional de que o quadro pioneiro do francês, Nu Descendo a Escada (1912), não representa seres humanos deformados à maneira cubista, mas elétrons em disparada. “Duchamp estava em busca de representações visuais para os conceitos ‘invisíveis’ da ciência, como a velocidade ou o movimento dos fluidos”, diz Linda. “E embora não estivesse sozinho nisso – os poetas futuristas italianos, nessa época, também falavam na ‘beleza da velocidade’ – Duchamp não tinha em mente apenas os carros, mas a muito mais bela velocidade dos elétrons.”

Das artes plásticas à música, o movimento geral de repúdio aos conceitos absolutos levou o compositor austríaco Arnold Schoenberg a destronar a concepção de que as canções deveriam ter um tom, ou uma nota dominante. Foi como nasceu a música atonal, inaugurada com o Opus 11, composto por Schoenberg em 1909. Alguns anos mais tarde, o russo Igor Stravinsky também abandonaria a regra de que a músiva devia ter um andamento regular e criou sinfonias nas quais as notas soavam ora mais depressa, ora mais devagar.

Ao analisar a arte desse período, o médico e escritor americano Leonard Shlain argumenta que, para Einstein, não importava se um objeto está parado ou em movimento: tanto se pode dizer que a Terra gira em torno do Sol, como vice-versa. Dito de outra maneira, não há na relatividade um corpo que sirva sempre de parâmetro e outro que esteja sempre em movimento; todos têm as mesmas propriedades em relação às leis da física. “O que Schoenberg e outros compositores fizeram foi declarar que não há tonalidades privilegiadas na música, da mesma maneira que, para os cubistas, nenhum ponto de vista é melhor ou pior que outro”, diz Shlain.

A obra de Shlain representa, ela mesma, uma outra forma, menos “invisível”, de os conceitos da física se infiltrarem em foros não-científicos. Acontece que ele rouba tempo de suas atribuições de cirurgião e professor da Universidade da Califórnia – ele foi um dos pioneiros em laparoscopia assistida por vídeo, há dez anos – para escrever excelentes livros de divulgação científica. Ou seja, uma corrente literária que, como a ficção científica, deve sua própria existência à importância da ciência nos séculos XIX e XX e ao modo como ela conseguiu sair dos laboratórios e se espalhar por outras áreas do conhecimento humano.

 
 
Fonte:Flávio Dieguez