A maldição da vaia

A maldição da vaia

 

Todo mundo sabe: a irritação do público durante um show de música é capaz de derrubar qualquer artista. No Rock in Rio não é diferente. A possibilidade de rejeição no festival, que já ocorreu várias vezes, assombra especialmente os músicos escalados para tocar antes de bandas de heavy metal. Nesta edição do festival, artistas como Detonautas e NX Zero encontram-se nessa situação. Mas a maior candidata a receber apupos é a banda Gloria. Os paulistanos de estilo meio emo, meio pesado foram encarregados de abrir o dia dedicado ao rock pesado e vão apresentar suas canções melódicas a fãs ansiosos para ver gigantes do metal, como Slipknot, Motörhead e Metallica.

A prática de hostilizar publicamente os artistas no Rock in Rio começou logo na primeira edição, em 1985. Ney Matogrosso foi escalado para abrir o festival. O público, que estava ansioso para ver Whitesnake e Iron Maiden, vaiou e jogou latinhas no cantor. Sobrou também para Erasmo Carlos, que subiu ao palco depois de Ney. “Os gestos com os polegares para baixo e as vaias foram as imagens que guardei”, conta o músico em sua autobiografia, Minha fama de mau. Na mesma edição, as vaias foram responsáveis pelo encurtamento da apresentação de Eduardo Dussek. A pressão foi tão formidável que o músico foi embora antes de acabar seu show, não sem antes revidar as ofensas: “Se você é negativo, por que vir a um show de rock? Fique em casa e se suicide, que é melhor”.

Na edição seguinte, em 1991, o maior prejudicado pela ira dos metaleiros foi Lobão. O cantor se apresentou depois do Sepultura. O público, contrariado, arremessou latinhas e vaiou o músico. Quando uma lata acertou sua guitarra, Lobão foi embora. Ele tinha tocado por apenas seis minutos.

Carlinhos Brown foi o grande vaiado de 2001, mas não sem motivo. O cantor baiano disse no palco que as pessoas que gostavam de rock eram “ignorantes que tinham muito que aprender na vida”. O público revidou com vaias e arremessando o que tivesse à mão. “Podem atirar o que quiserem, porque eu sou da paz e nada me atinge”, disse Brown. Ele acabou atingido por várias garrafas de água.

As plateias indóceis existem desde os primórdios da arte – e o ato de vaiar é igualmente antigo. Ele surgiu no século V a.C., na Grécia, quando o público era convidado a participar de apresentações cênicas aplaudindo as boas peças e vaiando as piores. O costume continuou em Roma, quando a reação do público decidia se um gladiador continuava a viver ou deveria ser executado. A vaia, neste caso, era definitiva. Com o passar dos séculos, a prática chegou aos jogos esportivos e shows. Em grandes festivais como o Rock in Rio, em que fãs de uma banda específica acabam tendo de assistir a vários shows antes de ver seus ídolos, a vaia é quase inevitável. É, antes de mais nada, um sinal de impaciência. Para escapar da hostilidade, é preciso antecipar-se a ela e agir para desarmar a má vontade do público – ou contorná-la.

Alguns artistas conseguiram contornar a ira de plateias difíceis improvisando. Na primeira edição do Rock in Rio, o guitarrista Pepeu Gomes foi escalado para subir ao palco entre os shows de Ney Matogrosso e Erasmo Carlos. Diante da vaia iminente, ele mudou seu repertório e apresentou apenas peças instrumentais, cheias de solos distorcidos. Conquistou o público. Na mesma edição, Herbert Vianna, dos Paralamas do Sucesso, passou um sermão na plateia em seu segundo show. “Em vez de ficar jogando pedra, fica em casa aprendendo a tocar guitarra. Quem sabe no próximo você não está aqui no palco.” Foi aplaudido. Em 2001, o Pato Fu se viu em apuros. A banda foi escalada para tocar no mesmo dia dos Guns n’Roses, cujos fãs recebem aulas de malcriação e arremesso de objetos com o vocalista Axl Rose. Para escapar das manifestações hostis, a banda abriu o show com “Capetão 66.6 FM”, música pesada com vocais distorcidos, e terminou com um trecho de “Enter Sandman”, do Metallica. “A gente sabia o que fazer, mas sempre tem um risco”, diz o guitarrista John Ulhoa. O Pato Fu acabou eleito pela revista Time como uma das dez melhores bandas de fora dos Estados Unidos naquele ano.

A julgar pelas manifestações de alguns fãs de heavy metal antes do Rock in Rio, o Gloria terá de seguir o exemplo do Pato Fu e de Pepeu Gomes se não quiser acabar como Carlinhos Brown. Nas redes sociais, alguns metaleiros já anteciparam que não vão poupar a banda paulistana. O vocalista Mauricio Vieira diz estar preparado. “Com vaias ou não, o que importa é aonde minha banda chegou.”

As vítimas e os heróis (Foto: U Dettmar/Folhapress, Ivo Gonzalez/Ag. O Globo, Maurício Valadares/Ag. O Globo, Antônio Gaudério/Folhapress, Sebastião Marinho/Ag. O Globo e Miriam Fichtner/Ag. O Globo)