Aprendendo com as árvores

Aprendendo com as árvores

O mundo está perdendo suas florestas e, junto com elas, riquezas e conhecimentos de valor incalculável. A boa notícia é que ainda é possível evitar a tragédia.

Ano 2250. O cenário impressiona pela magnitude: 5,5 milhões de quilômetros quadrados de cerrado – mais ou menos dez vezes o tamanho da França. O clima é árido, o ar sempre seco, e quase não há sombra entre as árvores, todas baixinhas e de troncos grossos. Atravessar esse território é um rally de força e resistência, tarefa para máquinas automotivas capazes de vencer a praga do capim e os troncos carbonizados que aparecem pela frente. Os rios estão com menos água ainda do que no ano anterior e é raro ver um bicho cruzando o caminho. Além do capim e do calor – uma perigosa combinação – tudo que se tem em grande quantidade é fumaça e fogo. Onde quer que a vista alcance há uma cortina branca nos avisando: por aqui não...

Esse cenário meio Mad Max pode ser a Amazônia do futuro. “É um quadro assustador, um tanto pessimista”, comenta o ecólogo Paulo Moutinho, do  Instituto de pesquisa Ambiental da Amazonia ( ipam). Tanto quanto a maioria de nós, ele torce para que isso não aconteça – nem em filme. Mas não custa considerar: o risco existe. No sudeste da Venezuela, que faz fronteira com Roraima, a floresta já virou savana. Madagascar, no Oceano Índico, outrora um santuário de animais e plantas, tem, hoje, apenas 10% da sua cobertura original. Na Indonésia e nas ilhas de Sumatra e Bórneu restam 7,8%. O caso das Filipinas é desesperador: existe apenas 3% da mata original.

Quase 70% das florestas remanescentes em todo o planeta estão no Brasil, na Rússia e no Canadá. Mas o perigo real e imediato ronda as áreas tropicais, especialmente as asiáticas, onde a devastação mecanizada vem fazendo estragos irreparáveis. A luta nesses lugares é pela conservação total, pelo bloqueio de toda ação predatória, mesmo aquelas vinculadas à idéia de sustentabilidade. Porque se mexer mais, acaba. A floresta tropical possui notável capacidade de regeneração, todavia sofre com variações de clima, é suscetível à ação do fogo e, claro, totalmente vulnerável aos ataques do ser humano.

“A Amazônia não figura entre as florestas que correm maior perigo, já que apenas 13% da sua área foi devastada”, explica Russell Mittermeier, presidente da ONG Conservation International. É ele também que lidera uma das mais recentes pesquisas sobre as florestas do planeta – o Hotspots Project –, que, durante três anos e com a participação de cientistas de 40 países, estudou os 25 ecossistemas que correm perigo iminente – daí o nome, hotspots, que pode ser traduzido como “lugares de grande risco”. Segundo Mittermeier, “os desafios no Brasil são o cerrado, que tem 20% da sua área original, e a mata atlântica, com 7,5%.” Vale dizer: a mata atlântica tem sob proteção só 21% da sua área total. É pouco, quase nada, se quisermos mesmo evitar a extinção de espécies e a evolução natural desse ecossistema.

 

Por que precisamos das florestas

As florestas são os ecossistemas terrestres mais complexos que se conhece. “Elas respiram tanto quanto liberam oxigênio”, diz Waldir Mantovani, professor do Departamento de Ecologia da Universidade de São Paulo. “Portanto, florestas não são pulmões do mundo. Mas elas são extremamente importantes como reguladoras de ciclos naturais, como o do carbono, o da água e o da diversidade biológica.” Além disso, as florestas contêm uma grande quantidade de organismos vivos e é evidente que a destruição da mata vai desfazer as interações que existem entre eles, levando-os ao desaparecimento. Muitas espécies animais e vegetais escondem segredos que o ser humano ainda não conhece.

Na década de 1970, o cientista Michael Tyler, da Universidade de Adelaide, nos Estados Unidos, descobriu, na floresta tropical da Austrália, um tipo de perereca que expelia seus ovos e depois os engolia, para incubá-los no estômago e dar à luz pela boca. Chamava ainda mais a atenção o fato de o pequeno animal ser capaz de “ligar” e “desligar” a emissão dos ácidos estomacais e, com isso, manter seus futuros filhotes a salvo do inclemente trato digestivo. Bem, milhares de seres humanos sofrem com excesso de ácidos no estômago. Talvez aquele bichinho pudesse dar pistas para resolvermos o nosso problema. Mas não deu tempo de saber: as florestas tropicais da Austrália foram quase inteiramente devastadas e a tal perereca desapareceu em 1980, antes que os laboratórios chegassem a resultados conclusivos.

O ecólogo Paulo Moutinho compara a eventual perda das florestas tropicais à queima de uma grande biblioteca como a de Alexandria. “É como se ali estivessem guardados milhares de livros que ninguém nunca leu. Há informações que podem ser fundamentais para a nossa vida no futuro.”

O painel da situação das florestas é trágico, se comparado ao que havia no planeta anteriormente. Mas é animador enquanto mostra que, freando o avanço das motosserras, conseguiremos reverter a situação. Centenas de projetos estão saindo das gavetas de instituições, órgãos governamentais e não-governamentais. A idéia básica é preservar áreas que ainda não tenham sido muito devastadas e conservar as que já foram quase dizimadas (no jargão dos especialistas, preservar significa utilizar recursos naturais da floresta com responsabilidade; conservar é deixar a floresta intacta).

Em 1997, nos Estados Unidos, Julia Hill, então com 23 anos, subiu numa sequóia e ficou morando ali durante dois anos, defendendo-a de uma madeireira. Deu certo, mas não significa que teremos de fazer o mesmo. Um dos modelos de preservação que também está dando certo é o manejo florestal. Trata-se de conscientizar madeireiros e donos de serrarias a fazer um inventário da floresta e utilizar técnicas apropriadas de corte – que árvores podem ser cortadas, quando e como. “As florestas tropicais têm poder de regeneração”, diz o pesquisador Édson Vidal, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). “Basta que o homem não ultrapasse os limites e deixe que a natureza faça a sua parte.” O pacto de conservação que o Imazon iniciou em 1991 reduziu a perda de árvores em 50%.

A queimada – técnica de preparação e fertilização do terreno usada por pequenos produtores de todo o mundo –, quando não puder ser evitada, deve contar com um programa de prevenção de incêndios. É comum as chamas se alastrarem pelas florestas, mais ainda sob condições de seca como a imposta pelo fenômeno El Niño. A fiscalização pode ser feita pelos próprios agricultores e possíveis brigadas de incêndio. “Mas é fundamental educar o pequeno agricultor”, alerta Paulo Moutinho. “A queimada pode ser feita, mas de forma cautelosa.”

Para a maioria dos ambientalistas, contudo, a maior ameaça às florestas tem sete cabalísticas letras: rodovia – não apenas a obra em si, mas principalmente a ocupação desregrada que ela traz. Calcula-se que o impacto de uma estrada pavimentada atinja até 100 quilômetros ao largo de cada uma de suas margens. Segundo Daniel Nepstad, pesquisador norte-americano que, ao lado de Paulo Moutinho, está secando uma porção diminuta da floresta amazônica para estudá-la sob condições extremas, 75% do  desmatamente na região ocorreu em torno das rodovias. “Em 26 anos de Belém–Brasília, 58% da floresta que havia por perto simplesmente desapareceu.”

Uma das soluções da temporada pode estar nos mecanismos de “patrocínio” de florestas: países e empresas que poluem acima de uma determinada cota criariam uma espécie de débito ambiental que, com justiça, seria quitado em forma de investimentos nos países que preservam suas florestas. O Protocolo de Kyoto, no qual diversos países se comprometem a reduzir a emissão de gases para estancar o aquecimento global, propõe, entre outras medidas, a criação desses “sumidouros de dióxido de carbono”. Essa seria, também, uma forma decente de encaminhar o fluxo de capital do Primeiro para o Terceiro Mundo: um cálculo preliminar define esse novo mercado em 17 bilhões de dólares por ano – e isso só para começar. Não é preciso ter a sabedoria de uma árvore para entender que se trata de um ótimo negócio.