Gêmos: A vida no plural

Gêmos: A vida no plural
Ter a identidade espelhada num irmão gêmeo e participar de um eterno jogo de comparações. Mas elas ajudam a explicar como a herança e o ambiente formam o ser humano.
 

Eles chamam a atenção desde que se os conhece por gente. São mimados em dobro e causam confusão por dois — ou mais. Quem os vê não resiste a caçar diferenças mínimas em suas aparências e semelhanças em suas personalidades. Mas, sobre o sucesso que fazem por serem tão iguais, suas opiniões divergem: existem os que não conseguem imaginar a existência no singular; para eles, um é muito pouco. Outros, cansados de mal - entendidos, acham que dois é demais. A vida aos pares é assim mesmo, ambígua: há momentos constrangedores, outros cômicos, há situações irritantes, outras incomuns. Apenas duas em cada noventa pessoas sabem o que é ter a identidade espelhada num irmão gêmeo. E a ciência começa a saber por que isso acontece.

Mas se os gêmeos são motivo de curiosidade, no passado eles eram considerados nada menos do que sobrenaturais. É compreensível. Sem explicações científicas, o que o homem primitivo podia imaginar ao ver nascer duas ou mais crianças, quando só esperava uma? Se o parto coincidisse com períodos de farta colheita, os bebês eram louvados como benfeitores. Se fosse época de enchente, de seca ou de fome, então os recém - nascidos eram os culpados pela desgraça. Mesmo nos dias atuais, em algumas tribos americanas nascimentos múltiplos são recebidos como bênçãos.

Já em tribos do sudeste da África, como na dos zulus, quando alguém mostra dois dedos para outro, não está desejando paz e amor — e sim gêmeos, para eles sinônimo de muito azar. Em geral, porém, quem tem filhos gêmeos se acha uma pessoa de sorte, apesar de trocar o dobro de fraldas. O que observa a psiquiatra paulista Dulce Machado, autora de um livro sobre o assunto. "A mãe de gêmeos se sente mais mãe", nota. Esse orgulho pode ter origens muito remotas. Afinal, as primeiras representações de gêmeos, (estatuetas e desenhos em cavernas), que datam de mais de 2 800 anos, mostram as mães como deusas.

Os próprios gêmeos eram considerados algo divino na Antiguidade. Um dos mitos clássicos da Grécia é o de Castor e Pólux, filhos de Leda, mulher do rei de Esparta. Embora idênticos, seus pais eram diferentes: o de Castor era o rei, portanto mortal; o de Pólux era Zeus, imortal habitante do Olimpo. Quando Castor morre numa batalha, o irmão pede ao pai para compartilhar o seu destino. E assim Zeus os transforma na constelação de Gêmeos, que, segundo os astrólogos, rege a dupla personalidade de quem nasce entre 21 de maio e 20 de junho.

Mas nem todos os gêmeos que ficaram para a história se davam tão bem quanto os irmãos espartanos, pois na maioria dos mitos representam características tão antagônicas que terminam rivais. O Antigo Testamento, por exemplo, descreve brigas de Esaú e Jacó ainda no útero da mãe, Rebeca, mulher do patriarca Isaac. Outros íntimos inimigos foram Rômulo e Remo, lendários fundadores de Roma. Filhos do deus da guerra, Marte, na hora de decidir quem governaria a cidade recém criada, Rômulo assassinou Remo. Sem chegar a tais extremos, não raro alguns gêmeos tornam-se rivais depois de adultos. "Quando são tratados em casa como se fossem uma única pessoa, não criam uma auto-imagem", analisa a psiquiatra Dulce Machado. "Resultado: mais velhos, tanto buscam uma identidade que acabam rivalizando como se precisassem ser o oposto do outro." Tudo o que é feito em casa para reforçar a semelhança — como o condenável e renitente costume de vestir gêmeos igual — também acaba reforçando esse conflito, que tende a explodir na adolescência. "É normal na infância os gêmeos gostarem mais de brincar entre si", comenta a psiquiatra Dulce. "Alguns chegam a criar uma linguagem própria, que só eles compreendem."

Uma recente pesquisa nos Estados Unidos mostra que cerca de metade dos gêmeos usavam um código secreto de comunicação na infância. Além disso, quase toda criança se aproveita da condição de gêmeo para confundir os adultos — e os psicólogos asseguram que não há nada de errado nisso. Mas existem exceções. Os gêmeos paulistanos Juca e Chico Kfouri, de 10 anos, não acham graça em inverter os papéis. "Nunca fizemos isso", garante Juca. "Mesmo assim, meu irmão já levou bronca da professora por coisas que eu fiz." Talvez por isso, Chico acha que "a coisa mais chata do mundo" é ser confundido.

"Eu, por exemplo, sou são-paulino roxo", identifica-se Chico. "Já o Juca é corintiano fanático. É a nossa grande diferença." A verdade é que eles não querem ser iguais, mas são. Afinal, trata-se de gêmeos idênticos (ou monozigóticos, como dizem os biólogos): carregam rigorosamente a mesmíssima bagagem genética. Originam-se quando o óvulo fecundado por um único espermatozóide se divide por igual em dois ou mais blocos, que passam a crescer independentemente. Por que isso acontece? "A ciência ainda não tem resposta", diz o obstetra Thomaz Rafael Gollop, do Hospital Albert Einstein, de São Paulo.

"Tudo torna-se mais misterioso pelo fato de que qualquer mulher pode ter gêmeos idênticos, mesmo quando não existem casos semelhantes na família", esclarece Gollop. Um em cada três pares de gêmeos é idêntico. Os demais podem ser fraternos (também chamados dizigóticos). Estes, sim, costumam nascer em famílias onde já existem gêmeos. Enquanto os idênticos sempre têm o mesmo sexo, os fraternos podem ser homens e mulheres. Aliás, eles podem ser diferentes em tudo, porque resultam da fecundação de dois óvulos por dois espermatozóides.

Recentemente, os cientistas descobriram que há mais dois tipos de gêmeos. Existe a hipótese de que, raríssimas vezes, também por motivos ainda desconhecidos, o óvulo pode se dividir antes mesmo de ser fecundado — e, quando isso acontece, a fecundação se dá por dois espermatozóides. Os gêmeos que nascem dessa união chamados semi - idênticos, são 50 por cento iguais geneticamente. Pode ser ainda que uma mulher, grávida de poucos dias, engravide de novo, vindo a conceber outra criança do mesmo ou de outro pai. Neste caso, os filhos, embora gêmeos pelo simples fato de nascerem juntos, seriam meio irmãos. Impossível? Até setembro último já foram comprovados quatro casos assim no mundo inteiro.

Seja de que tipo forem, os gêmeos têm motivo de sobra para se considerar muito especiais. A começar pelas escassas possibilidades de existirem. "Numa maternidade de grande movimento, onde ocorrem setenta partos por dia, nasce um par de gêmeos a cada 36 horas", calcula o obstetra Gollop. Trigêmeos são ainda mais raros: um caso em cada 8 mil partos. Quádruplos nascem na proporção de um caso para cada 700 mil pessoas que vêm ao mundo; e quíntuplos, enfim, são um caso para cada 62 milhões de partos.

Na verdade, a freqüência de gravidez múltipla é muito maior — uma em cada cinco gestações. Na maioria dos casos, porém, um dos fetos acaba absorvido pelo organismo. Gêmeos idênticos distribuem- se igualmente por todas as raças. Mas os negros têm o dobro de chances dos brancos de gerar fraternos — a razão estaria na taxa maior de hormônios das mulheres negras. Em compensação, os brancos têm duas vezes mais chances de ter gêmeos que os orientais — aparentemente, também por uma questão de hormônios. Não raro, as pessoas confundem as causas. Os iorubas, do oeste da África, são imbatíveis em matéria de partos múltiplos — cerca de cinco em cada cem partos (cinco vezes mais, em números redondos, que no Brasil). Eles acreditam que os gêmeos nascem quando as mulheres fazem bonecos de bebês, chamados ijedi, e entoam cantos apropriados. Em meados deste ano, porém, pesquisadores descobriram por que as mulheres iorubas tendem a ovular mais de uma vez ao mês. O segredo está no inhame, a base de sua dieta. O tubérculo, parecido com a batata e comum no norte brasileiro possui uma substância que estimula os hormônios responsáveis pelo amadurecimento dos óvulos. De qualquer maneira, cientistas do mundo inteiro têm dado atenção dobrada aos gêmeos — em particular aos idênticos. É que eles são a única fonte para se descobrir até que ponto se é o que se vive e até que ponto se e o que se nasce — ou seda, a eterna questão do papel do meio ambiente e da hereditariedade na formação do ser humano. De fato, ao se comparar as semelhanças entre gêmeos idênticos, pode-se descobrir quais características físicas e psíquicas foram herdadas e quais foram adquiridas. A geneticista Glória Dal Colletto, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, pesquisa o assunto há quinze anos e calcula ter mais de trezentos pares de gêmeos catalogados.

Pois bem, Glória desenvolveu um método para descobrir quando gêmeos são ou não idênticos, analisando mais de vinte variáveis nas linhas das palmas das mãos e dos dedos. Ela percebeu, por exemplo, que a mão esquerda de um gêmeo é muito mais parecida com a mão esquerda do irmão do que com sua própria mão direita. Não é apenas por curiosidade acadêmica que os cientistas querem identificar os gêmeos idênticos. Estes interessam para estudos pioneiros, como os que vêm sendo realizados há nove longos anos por uma equipe liderada pelo psicólogo Thomas Bouchard Junior, em Minnesota, nos Estados Unidos. Tudo começou quando Bouchard leu uma notícia sobre o reencontro de dois gêmeos, após décadas de separação. Ao procurá-los, ficou tão surpreso com a massa de coincidências que encontrou que resolveu estudar quantos pares de gêmeos fosse possível. Os 3 mil que já conseguiu reunir proporcionaram-lhe uma coleção de histórias espantosas. Tome-se o caso de Jim Lewis e Jim Springer, 39 anos, separados quando tinham poucos meses de idade e adotados por famílias diferentes.

Logo na primeira conversa, os irmãos descobriram que casaram com mulher do mesmo nome (Betty), deram aos filhos também o mesmo nome (James e Alan), dirigiam a mesma marca de carro (Chevrolet), da mesma cor (azul), tinham a mesma atividade (bombeiro), gostavam do mesmo passatempo (marcenaria), passavam as férias na mesma praia e tinham, cada qual, um cachorro chamado Toy. Os cientistas esperam um dia explicar coisas assim. Eles não ousam afirmar que todos os gêmeos idênticos necessariamente vivem vidas parecidas por causa dos genes. Mas pelo menos estão convencidos de que gêmeos que foram criados juntos são menos parecidos do que aqueles que foram separados na infância. Estes, afinal, não precisaram distinguir-se um do outro para adquirir identidade própria. "Como gêmeos idênticos têm heranças genéticas iguais, qualquer diferença nos resultados dos exames a que os pesquisadores os submetem só pode ser resultado do ambiente", explica a geneticista Glória Dal Colletto.

Por mais que tenham hábitos diferentes, gêmeos idênticos tendem a ter, por exemplo, as mesmas doenças nos mesmíssimos períodos de suas vidas — desde uma curável apendicite a fatais ataques cardíacos. Também começam a usar óculos com a mesma idade, quando é o caso. Isto significa que os genes não só trazem a tendência a sofrer de certos males como também funcionam feito verdadeiras bombas-relógio. Nos exames de eletroencefalograma, gêmeos idênticos mostraram ter ondas cerebrais muito semelhantes. Isto é, diante de certos estímulos visuais e sonoros, seus cérebros reagem quase com a mesma intensidade.

Os testes de personalidade de gêmeos idênticos, realizados na mesma época, são mais parecidos entre si do que os testes de uma mesma pessoa realizados em momentos diversos de sua vida. A partir de tais exames concluiu-se que, em três de cada cinco gêmeos, traços de personalidade e comportamento tão diversos como capacidade de imaginar, espírito de liderança, tendência ao estresse e desejo de correr riscos parecem resultar mais dos genes que do ambiente em que viveram. A mais hereditária das características, porém, deve ser a timidez, 96 por cento dos tímidos têm irmão gêmeo tímido. Já a agressividade, a sociabilidade e a inteligência seriam mais influenciáveis pelo meio e pelas condições de educação. O sentimento do medo também pode ser herdado. Os pesquisadores citam a propósito o caso de gêmeas que não se viam havia mais de trinta anos e sentiam idêntico pavor de nadar.

Os cientistas esclarecem que os genes não determinam rigorosamente o destino, mas podem, isto sim, deixar as pessoas predispostas a fazer determinadas coisas: dessa maneira, pode-se herdar uma maior sensibilidade ao ambiente — o que se transformaria em ansiedade ou em depressão conforme o meio em que se vivesse. O estudo de um grupo de cientistas europeus mostra que essa predisposição pode ter largo alcance. Eles pediram a 3 800 pares de gêmeos idênticos que opinassem sobre assuntos tão diversos como música por computador e política. Viu-se que os gêmeos tinham a mesma opinião a respeito de sete em cada dez questões. Se os genes parecem jogar um papel tão decisivo na vida das pessoas, seria o caso de achar que gêmeos idênticos são também personalidades gêmeas. Essa, porém, é uma idéia que muitos deles definitivamente não aceitam.

 

 

 

Um pelo outro

Uma briga de escola: um garoto chorando se aproxima da professora e diz que tomou um soco — só não sabe direito de qual daqueles dois colegas. A professora, para resolver logo a questão, pede ao irmão, quatro anos mais velho, dos acusados para apontar o culpado. Inútil: ele ainda não sabia quem era quem entre os gêmeos Roberto e Renato Piza de Toledo, na época com 5 anos. Tanto pior para Roberto — acabou sendo punido por algo que não fez. Filhos de um casal de classe média alta de São Paulo, educados sem a preocupação de fazê-los nem iguais, nem diferentes, os meninos não parecem ter problemas pelo fato de serem gêmeos — apesar das confusões que às vezes castigam o inocente e absolvem o culpado.

"De vez em quando é até bom que troquem um pelo outro", comenta Roberto. Mas eles se dão por satisfeitos em saber que têm lá suas diferenças. Renato, o mais falante, gosta de Matemática, por exemplo. Roberto, o caladão da dupla, prefere Português.

A competição entre eles se resume em saber quem está mais alto — uma corrida em que o vencedor se alterna a cada mês.

 

 

 

Tudo a duas

O único ano em que Geórgia e Roberta Dias Montellato, 21 anos, ficaram separadas foi um desastre: então na quarta série primária, as gêmeas quase foram reprovadas. "Não havia mais estímulo para estudar depois que nos mudaram de classe", lembra Roberta. que, por sinal, fez as provas finais no lugar de Geórgia para salvar a irmã. Hoje elas estudam Propaganda juntas. E, como se não bastasse, trabalham na mesma agência de publicidade. "Sempre fomos assim", conta Geórgia. "Só quando éramos pequenas uma queria ser muito diferente da outra. Mas isso não durou muito."

Trabalhando também como modelos fotográficos, já posaram para anúncios de — é claro — copiadoras. "Dividimos tudo", diz Roberta, "nem as roupas escapam." Essa mania de dividir já chegou a extremos: depois de namorar com Geórgia um ano e meio, um rapaz ficou com Roberta, também durante um ano e meio. "Coitado dele: foi um carma duplo", admite Roberta.

 

 

 

Tripla confusão

Quando nasceram, há 26 anos, Rodrigo, Adão e Diogo Machado — por ordem de entrada em cena no mundo — saíram nos jornais. Afinal, eram os primeiros trigêmeos conhecidos da história da cidade paulista de Campinas. A fama, porém, não agradou a nenhum dos três. Na infância, protegiam-se da curiosidade alheia com uma cadela fila que rosnava ameaçadoramente para quem quer que se aproximasse demais daqueles garotinhos tão parecidos.

"Só aos 18 anos fizemos uma brincadeira", conta Rodrigo, publicitário. "Ficamos os três lado a lado, propositadamente calados e sem expressão no rosto, na porta de um bar. Todos que entravam tropeçavam numa mesinha, distraídos com as nossas figuras." Para Diogo, advogado, "é preciso ter responsabilidade tripla quando se tem irmãos gêmeos. O que eu fizer hoje pode pegar mal para eles amanhã". Uma vez Diogo, solteiro como os irmãos, foi beijado por engano pela namorada de Rodrigo. Adão, por sua vez, um engravatado empresário, não gostou de quase ser expulso de um restaurante por uma conta que Rodrigo, de brincadeira, deixara de pagar. "De tanto sermos confundidos, aprendemos que não vale a pena parar para explicar quem é quem, quando cumprimentam um de nós na rua como se fosse outro", diz Adão. "Respondemos a todos por qualquer dos três nomes.

 

 

 

Humores diferentes

Gêmeos gostam de brincar juntos. Mas, há 33 anos, quando tinham 6 de idade, os irmãos Chico e Paulo Caruso começaram uma brincadeira que levam a sério até hoje: o desenho. Cartunistas de talento — Chico, no jornal O Globo, Paulo, na revista Isto É Senhor —, têm em comum a fina percepção das coisas e dos personagens da política brasileira, sua especialidade, retratados com humor implacável. Chico tem o traço mais conciso. Paulo, mais exuberante. "Nossa grande diferença hoje é o peso", brinca Chico, 80 quilos, 20 a menos que Paulo. Por telefone, os mal - entendidos ainda acontecem: a voz de um é a voz do outro. Mas logo se percebe quem é quem: Chico é mais afável; Paulo, mais casmurro. "O Chico sempre teve um forte problema de identidade. Acho que ele não gosta tanto de ser comparado a mim" diz Paulo. O irmão reconhece "Ter um irmão gêmeo é muito chato".

 

 

Quatro tipos de gêmeos: tudo começa no óvulo

1 - Quando, por motivos ainda desconhecidos para a ciência, um óvulo fecundado por um único espermatozóide se divide em partes iguais, formam-se gêmeos geneticamente idênticos.

2 - Um mesmo óvulo pode se dividir antes de ser fecundado por mais de um espermatozóide. Chamados semi-idênticos, os gêmeos são iguais só na metade dos genes — os herdados da mãe.

3 - Gêmeos fraternos se formam quando a mulher libera dois ou mais óvulos de uma vez. Estes são fecundados por espermatozóides diferentes e os babes são tão iguais quanto irmãos comuns.

4 - Em casos extremamente raros, um óvulo pode ser fecundado quando a mulher já está grávida de poucas semanas. Os gêmeos podem até ter país diferentes; neste caso, serão meio-irmãos.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Lúcia Helena de Oliveira