Instinto, não. Investimento

Instinto, não. Investimento
Uma mãe que castiga os filhos pode considerar essa agressão uma forma de cuidado – porque ela foi criada assim”
 
 

O instinto materno, aquela atitude generosa que acreditamos naturalmente programada, não existe. Segundo uma visão revolucionária da maternidade, o que há é uma predisposição biológica para o investimento no filho - determinada pela fria relação entre custo e benefício

 

Você, com certeza, se lembra de alguma campanha publicitária que tenha recorrido à imagem de um bebê e sua mamãe amorosa para vender fraldas ou amaciantes de roupas. A figura materna aparece também nos comerciais de margarina, de desinfetante, de pasta de dente. A mãe prepara a comida dos filhos, lava as roupas, deixa a casa em ordem, cuida da saúde da garotada, dá presentes e está sempre sorrindo, feliz por ser mãe. Como a natureza foi sábia ao dotar as mulheres de um instinto tão poderoso. Amor incondicional? Só o de mãe.

Mas, então, os intervalos comerciais acabam e vem o telejornal. Um garoto conta que foi espancado pela mãe. Você se revira na cadeira. Casos envolvendo agressões de mulheres contra os próprios filhos são chocantes. No entanto, acontecem com mais freqüência do que você pode imaginar. Vão desde o abandono em cestos de lixo até queimar o bebê com pontas de cigarro ou castigá-lo privando-o de comida. Em geral, essas mães são classificadas como desnaturadas, “exceções à regra”, e, rapidamente, a sociedade tenta encontrar motivos que justifiquem tamanha barbaridade – desequilíbrio mental, pobreza, desemprego, desespero. Afinal, mãe que é mãe carrega, escrito nos genes e inoculado pela evolução, o instinto materno – que jamais permitiria atrocidades desse tipo. Certo?

Não é bem assim, afirma a sociobióloga americana Sarah Blaffer Hrdy, da Universidade da Califórnia, em Davis, em seu livro Mãe Natureza – Maternidade, Filhos e Seleção Natural, recém-lançado no Brasil. Depois de reunir farto material sobre a maternidade nas mais variadas espécies e culturas, Sarah chegou a uma conclusão surpreendente: as mulheres não amam instintivamente seus bebês. Como as outras fêmeas do reino animal, elas não se afeiçoam de maneira automática a cada filho que nasce. O instinto materno, tal como o concebemos – uma determinação genética inevitável –, não existe. Tampouco o amor incondicional de mãe para filho baseia-se numa exigência biológica.

As intrigantes pesquisas de Sarah, casada e mãe – amorosa, segundo ela mesma – de três filhos, mostram que a evolução não presenteou a espécie humana com um chip especial, instalado em cada cérebro materno, ordenando que todas as mães vivam em função dos filhos e ofereçam colo a cada vez que eles caem no choro. A genética apenas predispôs as fêmeas a gerar seus bebês e oferecer-lhes condições de um crescimento adequado – aí a mesma regra vale para uma aranha-mãe, para uma gestante primata ou para uma humana profissional de classe média.

“Existe, sim, uma prontidão biológica para o cuidado dos filhos”, afirma a etóloga Suemi Tokumaru, da Pontifícia Universidade Católica, de São Paulo. “A fisiologia, a anatomia e, provavelmente, alguns circuitos neurais preparam a mulher para gerar e amamentar o filho. Mas a maneira com que ela cuidará do bebê vai depender de fatores circunstanciais.” Esses fatores resultam da interação com o ambiente, das influências culturais e do equilíbrio entre as ambições daquela mulher e as demandas da maternidade. No modo de zelar pelos filhos, portanto, não há nada de instintivo.

A dedicação ao filho, no fundo, é uma questão de investimento. Esta é a palavra que explica o zelo materno e que garante à prole de qualquer espécie condições de sobreviver até a independência. “A fêmea tenta, assim, passar seus genes adiante”, diz o etólogo César Ades, da Universidade de São Paulo. Não que as mães humanas pensem conscientemente em investir no recém-nascido para preservar o próprio patrimônio genético. “Mas, quando uma mulher se dedica ao filho, desejando que ele cresça perfeito e saudável, que vá bem na escola, que tenha amigos, que se case e lhe dê netos, está traduzindo em linguagem social o propósito fundamental de perpetuar seu próprio DNA e, como conseqüência, manter viva a espécie”, afirma César.

“A concepção de amor materno varia de cultura para cultura e recebe a influência do momento histórico e das circunstâncias sociais”, diz o antropólogo Benedito Miguel Gil, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Cada sociedade tem o seu modelo de mãe e os papéis que cabem a ela desempenhar – papéis que são, na verdade, as “regras culturais” de como investir na prole. As mães dos comerciais de margarina ou de fraldas revelam muita coisa daquilo que esperamos da figura materna. Por outro lado, as madrastas malvadas dos contos-de-fada personificam atitudes que execramos – por exemplo, a punição. “O amor materno pode ser entendido como uma forma culturalmente moldada de proteção à criança a fim de transformá-la num adulto apto”, diz o antropólogo Mauro Cherobim, da Unesp. “Demonstra que a mulher está investindo na sobrevivência de seu grupo social, de sua parentela.” Enfim, dela mesma.

Para ter idéia da dimensão do investimento da mãe no filho, para a espécie humana, basta pensar na fragilidade do bebê, que nasce totalmente imaturo e demora cerca de 15 anos para alcançar a independência. “Trata-se de uma tarefa pesada”, afirma Ades. “Imagine se não houvesse motivação para isso.” Mas não são só as mães que apresentam uma prontidão biológica para esse envolvimento. O médico e psicanalista britânico John Bowlby (1907-1990), criador da chamada Teoria do Apego, descobriu que os bebês nascem programados para formar um estreito vínculo emocional com a mãe ou com os primeiros adultos que tomam conta deles – em outras palavras, para apegar-se.

“A função biológica do sistema de apego é justamente aumentar as possibilidades de sobrevivência da criança, oferecendo-lhe proteção e segurança”, diz a psicóloga e terapeuta familiar Gilda Franco Montoro, do Centro de Estudos e Assistência à Família, em São Paulo. A qualidade desses primeiros vínculos constitui a base emocional do futuro adulto. Sentimentos de desamparo e de perda não passam em branco. “A criança pode crescer segura, com boa auto-estima, ou ansiosa e insegura quanto às suas relações afetivas, ou ainda com extrema dificuldade de se ligar a alguém, a partir da relação que a mãe estabelece com ela”, afirma. “Não podemos pensar somente na sobrevivência física. O bem-estar emocional garante o crescimento de um adulto mais autoconfiante e produtivo.”

Como o mundo não é um eterno comercial de TV, pode surgir um conflito: às vezes o cuidado com o filho acaba prejudicando o projeto de perpetuação genética da mãe (quando os recursos são insuficientes para mãe e filho, por exemplo, ou quando há filhos demais). Entra em cena, então, o cálculo entre custos e benefícios. Ok, custo/benefício não é um raciocínio muito maternal. Mas essa equação garante a sobrevivência da espécie, mesmo que ela implique em atitudes radicais. “O infanticídio é muito comum entre grupos tribais que temem por um desequilíbrio demográfico. Entre os índios Tapirapé, por exemplo, que vivem na região do Rio Araguaia, se o casal tem dois filhos de um mesmo sexo, o terceiro é morto ao nascer”, diz Mauro Cherobim. Há casos na natureza, inclusive entre os primatas, de mães que praticam o aborto seletivo, protegem alguns recém-nascidos em detrimento de outros ou descuidam da cria quando entram no cio e buscam um macho.

Para nós, que somos seres simbólicos e reflexivos, essas atitudes são um absurdo. “Mas o comportamento materno não pode ser entendido como uma força determinada apenas pelos genes”, afirma César Ades.

Para compreender os casos de negligência ou infanticídio, é preciso adicionar ao componente biológico o cultural e o emocional. “Cuidar do filho não é um imperativo absoluto. É uma atividade influenciada pelo contexto e pelos interesses de sobrevivência da mãe”, diz César. “Isso não quer dizer que a tendência materna de zelar pela prole não seja relevante – pelo contrário.” Mães que abandonam o filho em cestos de lixo, quando são descobertas, em geral alegam que não tinham condições de criar a criança e preferiram deixá-la para adoção. Essas mães aceitam o princípio de que cuidar do bebê é fundamental, mas acreditam não conseguir garantir o desenvolvimento dele (o que não quer dizer, é claro, que o ato delas seja justificável. Afinal, as imposições culturais que a proíbem de cometer esse crime não existem por acaso).

“Uma mãe que castiga os filhos pode considerar essa agressão uma forma de cuidado – porque ela foi criada assim”, afirma o psicólogo paulista Alberto Pereira Lima. “Essa mulher tende a reproduzir, com os filhos, aquilo que ela, dentro da sua família, apreendeu como amor materno.” Cada um faz uma leitura pessoal da relação com a mãe e a toma, inconscientemente, como modelo de relação com o filho. Em vez de nutrir e zelar, aquela mulher pode privar e punir. Mas, apesar desse comportamento, a prontidão biológica para o investimento na prole continua presente. Nada impede que uma mãe negligente, em outras condições sociais e em outro momento de sua vida, se torne amorosa e protetora.

Por que, então, fala-se tanto em instinto materno se ele nunca existiu? Para Sarah Hrdy, a idéia propagou-se devido à crença comum desde o século XIX de que o desejo sexual feminino servia apenas para a procriação. As emoções maternas eram vistas como imposições da natureza à mulher, fatores desvinculados da sua sexualidade e de suas ambições. Nesse contexto, a idéia do instinto materno fazia todo o sentido. Acreditava-se que a função biológica e natural de toda mulher era ter filhos, amamentá-los e cuidar deles – se possível, dedicando-se integralmente à tarefa. Caso contrário, ela não cumpriria seu papel evolutivo.

Os estudiosos do comportamento humano e animal – conhecidos como sociobiólogos – hoje sugerem que a sexualidade feminina é muito mais do que um simples impulso reprodutivo. Ao contrário do que rezava a biologia do século XIX, não por acaso inteiramente dominada por homens, as mulheres têm desejo sexual e mecanismos de prazer muito complexos (Para saber mais sobre as descobertas a respeito da libido feminina, leia a reportagem “Viva Afrodite!”, capa da Super de outubro de 2000). A partir daí, ficou claro que os papéis que os cientistas atribuíam às mulheres eram determinados pela cultura, não pela biologia ou por leis naturais e imutáveis.

Prova disso é que os homens também são programados geneticamente para cuidar dos filhos. “Não há uma lei biológica que determine que a mãe tenha que cuidar mais da criança do que o pai”, diz Suemi. “O quanto cada um pode contribuir varia, dependendo da sociedade em que o casal vive. Há tribos em que o homem fica com o filho porque a mãe vai trabalhar.” Suemi reconhece, no entanto, que o investimento materno acaba sendo, em média, maior que o paterno, uma condição provavelmente favorecida por fatores como a gestação e a amamentação.

Que o zelo materno é fundamental para a sobrevivência e a saúde psíquica do filho, todo mundo está de acordo. A pergunta é: e se entre os seres humanos não houvesse esse investimento materno, também chamado de amor ou apego, e conhecido erroneamente como instinto? “A espécie não iria adiante, ficaria entregue ao sabor das casualidades”, diz César. Todos os filhos, dos recém-nascidos aos marmanjões, viveriam ao deus-dará. Muitos não sobreviveriam, outros cresceriam emocionalmente fragilizados. A taxa de mortalidade seria alta e aqueles que restassem comentariam, tristemente, como o Brás Cubas do escritor Machado de Assis: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa existência”.

 
 
 
 
 
Fonte:Maria Fernanda Vomero