O tédio adolescente

O tédio adolescente

Quem tem adolescente em casa, sabe: de uma hora pra outra, eles começam a torcer o nariz pra tudo. Sair de casa é uma dificuldade, almoçar com a família, então, é aquele tédio...Pois a ciência descobriu: esse tédio na adolescência é fundamental para o cérebro.

Os pais ficam perdidos!

“Ela começou a fazer aula de teclado. De repente: ‘Não quero mais fazer, está muito chato’", lamenta Denise Rocha, mãe de Isabela, de 11 anos.

“Eu escutava muito Britney Spears, agora eu não escuto mais, acho um tédio”, diz Isabela.

“Eu adorava tocar bateria. Só que, sei lá, cansou”, confessa Thiago, de 14 anos.

Há meses a tão sonhada bateria está abandonada. O saco de boxe, então, nem chegou a ser pendurado. E foi assim com os jogos, os carrinhos...

O tédio é um dos marcos do início da adolescência e era, até pouco tempo atrás, atribuído aos hormônios. Mas estudos recentes da neurociência trouxeram a novidade.

“Não é que o filho seja mimado, esteja fazendo birra ou seja rebelde. O tédio é simplesmente resultado de uma alteração necessária no cérebro, que é só o começo de um processo longo que dura cerca de dez anos”, explica a neurocientista da UFRJ Suzana Herculano-Houzel.
 
Nas meninas, começa por volta dos 11 anos. Nos meninos, um pouco mais tarde, aos 13 anos. De repente, uma área do cérebro conhecida como "sistema de recompensa" reduz drasticamente sua atividade.

“O sistema de recompensa é um conjunto de estruturas bem no meio do cérebro, entre o mesencéfalo e o núcleo acumbente. O tédio se instala quando o sistema de recompensa do cérebro não consegue mais obter o mesmo prazer, a mesma satisfação com o que antes funcionava”, detalha Suzana.

Isso acontece porque cerca de 30% a 50% dos receptores que respondem à dopamina, substância responsável pelo prazer, são destruídos. O cérebro, então, deixa de sentir prazer em atividades que antes eram divertidas. 

A ciência descobriu que esse tédio é fundamental para a formação do adolescente. “É ele que faz o adolescente abandonar o seu mundo da infância e se voltar para outros interesses”, diz a neurocientista.

E os pais são os primeiros a sofrer as conseqüências dessa transição, que pode levar meses. Como ainda não encontrou novos interesses, Isabela passa o dia trancada no quarto.

“Eu fico com medo dela entrar em depressão”, confessa Denise.

“O tédio passa a ser preocupante para os pais quando deixa de ser uma coisa que passa de uma área de interesse para outra, e começa a ser um tédio generalizado. Isso vira uma apatia”, declara a psiquiatra Vera Lengruber.

“Nessa fase, os pais devem oferecer novidades, oferecer literatura, levar ao cinema, se oferecer pra explicar história, política, filosofia, religião”, ensina Suzana.

“Se você der várias opções para o jovem vai ser mais fácil evitar que ele procure opções ruins como drogas, bebida, má companhia. Problemas que eventualmente surgem nessa fase”, completa Vera.

Thiago, por exemplo, já mostra que o fim do tédio está próximo.

“Eu vou sair dessa fase”, garante.

Vai, claro! O desenvolvimento do cérebro precisa continuar. “Logo em seguida, aos 14 ou 15 anos, acontece uma reorganização da região do córtex pré-frontal, que permite o raciocínio lógico, abstrato, a capacidade de atenção, concentração, a memória imediata e principalmente o controle de impulsos”, diz Suzana.

No entanto, a etapa mais esperada pelos pais só acontece por volta dos 18 anos. É o amadurecimento do córtex órbito-frontal, que finalmente traz juízo para o adolescente.

“Isso torna possível o arrependimento e a capacidade do adolescente antecipar a possibilidade de se arrepender de uma decisão”, afirma Suzana.

Enquanto isso, paciência. E não se espante se depois de tanto marasmo, eles forem atrás da adrenalina.

“O esporte é um estímulo excelente para o sistema de recompensa, além de fortalecer vínculos sociais”, diz Suzana.


Fonte: G1