Pimpolhos sabidos

Pimpolhos sabidos

A ciência descobriu o que muitas mães já desconfiavam: os bebês são bem mais inteligentes do que se imaginava. E mais: pode haver um gênio por trás de cada fralda

 

Se você acredita que o bebê é um ser ingênuo, a mais frágil e delicada das criaturas, um livro em branco ainda incapaz de perceber o mundo que o cerca, talvez o ingênuo seja você. “O recém-nascido não é nada disso”, diz Andrew Meltzoff, professor de psicologia da Universidade de

Washington. “Ele é uma poderosa máquina de aprendizado que usa a mente como um grande cientista.”

Autor do livro The Scientist in the Crib (O Cientista no Berço), recém-lançado nos Estados Unidos e ainda inédito no Brasil, escrito em parceria com as psicólogas Alison Gopnik, da Universidade da Califórnia e Patricia Kuhl, da Universidade de Washington, Meltzoff diz que já é hora de os pais mudarem definitivamente a forma de encarar os bochechudinhos que eles puseram no mundo. Sua mensagem é clara: as pesquisas nos últimos 30 anos revelaram que a capacidade de aprendizado dos bebês é muito maior do que se imaginava.

Meltzoff afirma que a máquina de absorção de conhecimento dos bebês começa a funcionar já nos primeiros dias de vida. Trata-se daquilo que muitas mães já sabiam por instinto quando juravam que seus recém-nascidos eram capazes de proezas como identificar a sua voz. O curioso é que foi graças ao uso de uma tecnologia hoje disponível na casa de qualquer cidadão de classe média, uma câmera de vídeo, que boa parte dessas descobertas começaram a pipocar. “Durante séculos as pessoas especularam sobre a mente do bebê”, diz Meltzoff. “Mas só recentemente ele foi de fato objeto de observação dos cientistas.”

Aí as surpresas começaram a aparecer: além de aprender rapidamente a distinguir a voz humana de outros sons, o bebê, poucos dias depois do nascimento, já reconhece faces, vozes e até os cheiros dos parentes. Antes dos sete meses, é capaz de fazer a distinção entre a sua língua materna e uma estrangeira. Mesmo antes de falar, aprende a se comunicar por gestos. E também a interpretar expressões faciais de felicidade, tristeza e raiva. E o mais intrigante: faz conexões de causa e efeito entre dois eventos de modo a prever ou controlar um terceiro. Por exemplo: os cientistas amarraram um móbile colocado acima do berço ao pé de um bebê de três meses. O pimpolho deduziu que quando chutava uma de suas pernas o móbile balançava. Resultado: sempre que ele queria balançar o brinquedo, mexia a perninha.

Por trás de experiências como essa está a prova de que a mente do bebê é bem mais sofisticada do que se costumava imaginar há bem pouco tempo. Estabelecer correlações entre eventos é a base do pensamento lógico e científico. E eles aprendem as leis de ação e reação muito antes do imaginado.

Toda essa precocidade de raciocínio dos bebês tem ajudado a responder a uma velha pergunta: o que, no homem, é produto da natureza e o que é produto da cultura? O que trazemos impresso nos genes e o que só aprendemos por meio da experiência? Filósofos, como o inglês John Locke, acreditavam que o recém-nascido era uma espécie de disquete virgem pronto para receber dados de seus pais, da comunidade em que estava inserido. A imagem que ele encontrou para descrever isso no século XVII foi a da tábula rasa.

Os escritores românticos do século XIX, como William Blake, tinham outra visão. Acreditavam que os bebês possuíam um tipo de sabedoria intuitiva, “própria das mulheres e dos homens primitivos”. Essas duas correntes concordavam numa coisa: bebês não raciocinavam como adultos. Eles adquiririam isso da cultura. “Essa divisão entre o que é natural e o que é cultural não faz mais sentido”, diz Meltzoff. “As pesquisas mostram que os bebês já nascem aprendendo e produzindo conhecimento, como se a aquisição de cultura fosse a própria essência da natureza humana.” Conclusão: não há uma mente zero quilômetro. Enquanto o cérebro do bebê está se formando no útero da mãe, ele responde a estímulos externos (a partir do quinto mês de gestação, por exemplo, ele é capaz de ouvir a voz dos pais) e, a partir daí, até o fim da vida, o seu destino é aprender.

A grande virada no campo da pesquisa das origens da inteligência humana foi a descoberta de que a formação do cérebro e do conhecimento correm juntas. Ainda na década de 60, os cientistas da Universidade da Califórnia comprovaram algo surpreendente: o cérebro de um rato se transformava fisicamente quando ele recebia mais estímulos. Comparando os ratos de laboratórios com outros que eram colocados num ambiente especial (maior e cheio de obstáculos como labirintos), a espessura do córtex cerebral crescia, em média 6%, devido ao aumento de ramificações dos neurônios. Foi a primeira prova de que o cérebro, assim como um músculo, poderia ficar mais potente desde que fosse propriamente exercitado. “Quanto mais estímulos um bebê recebe, mais conexões nervosas são formadas entre seus neurônios”, diz o neurologista Luiz Celso Vilanova, da Universidade Federal de São Paulo. “E é a quantidade dessas conexões que determina o patamar de inteligência da pessoa.”

Outras duas conclusões importantes resultaram dessas pesquisas: a primeira é que o recém-nascido não é um computador aguardando um programa que o ensine a funcionar. Em se tratando de seres humanos, hardware e software estão entrelaçados e são interdependentes. A segunda conclusão é ainda mais fascinante: ao contrário do seu computador, que fica lento como um jabuti quando você instala mais programas, o “processador” do bebê tem capacidade virtualmente ilimitada e é potencializado exatamente pela quantidade de dados que recebe e acumula no cérebro.

A esta altura, você que é pai ou mãe, deve estar se perguntando: e como eu faço para turbinar a inteligência do meu filho? Bem, comece encarando essas descobertas como uma espécie de edição atualizada do manual do usuário do bebê. De repente, você descobriu que o barrigudinho vem de fábrica com bem mais acessórios e programas instalados. A primeira coisa a fazer, portanto, é parar de subutilizá-lo, como alguém que usa um forno microondas de última geração apenas para aquecer um copo d’água.

Até aquele ambiente imaculado e silencioso – para não dizer piegas – que costuma ser instalado nos quartos dos recém-nascidos, como se eles sofressem uma espécie de doença mental, está sendo colocado em xeque pelos especialistas. “O bebê precisa de um local estimulante, com coisas para ver e ouvir”, diz Julia Manglano, coordenadora da escola para bebês A&D, em São Paulo. “Quanto mais os pais conversarem com a criança, melhor para o futuro dela.”

E não é nem preciso esperar que o seu fedelho pronuncie as primeiras palavras para começar a bater papo com ele. Duas especialistas em desenvolvimento infantil da Universidade da Califórnia, Susan Goodwyin e Linda Acredolo, provaram que os bebês podem (e querem) se comunicar já a partir dos oito meses, muito antes que eles tenham a coordenação fonética para entabular uma conversação. Basta que os pais escolham algumas palavras de uso comum – fome, sede, mamãe, cama, por exemplo –, e passem a acompanhá-las de gestos simples sempre que as pronunciarem na frente do bebê. “Se todos os pais ensinam os filhos a acenar na despedida, por que parar por aí?”, pergunta Susan.

Não resta dúvida de que os primeiros anos de vida são fundamentais para que a criança possa ter desenvoltura no futuro em diversas áreas, da música à matemática (veja quadro nas páginas 72 e 73). Há cerca de quatro anos, alguns neurologistas americanos afirmaram que haveria uma idade certa para que as crianças se interessassem por cada uma dessas áreas. Essa teoria ficou conhecida como “janelas de oportunidade”, períodos em que se poderia passar certos conhecimentos específicos com mais facilidade. Como uma janela, cada um desses interesses teria hora para se abrir e fechar. Se os pais não aproveitassem a idade certa para que a criança, por exemplo, se iniciasse na música, a janela se fecharia e, então, seria tarde demais para que ela se tornasse um pequeno Mozart. “Há um certo exagero quanto ao fechamento dessas janelas, como se a criança tivesse um calendário biológico determinista para se interessar por certos assuntos”, diz Luiz Celso Vilanova. “Mas é certo que os estímulos precisam começar a chegar cedo.”

Exagero ou não, empresas de todo o mundo voltaram suas atenções para as possibilidades desse novo mercado. Foram lançadas até revistas especializadas no assunto, como a americana Infantelligence, além de brinquedos, jogos, dezenas de livros, CDs do tipo “Beethoven para bebês” e camisetas com estampas geométricas que os pais devem usar para estimular a inteligência das crianças.

“Todo esforço para estimular o bebê é interessante, mas os pais não devem forçar a barra”, diz a psicanalista Cláudia Hohenkol, coordenadora do Infans, uma ONG especializada no atendimento de bebês em São Paulo. Especialista em inteligência infantil, ela diz que não adianta o pai colocar uma sonata de Mozart para o bebê ouvir se a criança sentir que ele não está curtindo a música ao estar ali com ela naquele momento. “O aprendizado também depende do afeto”, diz a psicanalista. “Se a mãe conversa com carinho com o bebê e o trata como um ser inteligente, é claro que ele vai responder a esses estímulos de forma carinhosa e inteligente.”

No futuro, quando essa geração de bebês estimulados se tornar adulta, talvez seja finalmente possível responder à pergunta que intriga há séculos a maioria das pessoas: existem limitações genéticas para a expansão da inteligência? Ainda que ninguém arrisque uma resposta definitiva para essa pergunta, o debate voltou a ganhar fôlego depois que o psicólogo Anders Ericsson, da Universidade Estadual da Flórida, defendeu que qualquer um pode se tornar um prodígio, desde que trabalhe duro e use de forma integrada os dois tipos de memória humana: a memória de curto prazo (aquela que nos permite decorar um número de um telefone que logo será esquecido) e a memória de longo prazo (a que armazena informações de forma duradoura). O segredo dos gênios estaria no bom intercâmbio entre esses dois tipos de memória. Essa tese vai de encontro ao chamado “argumento Mozart”, a idéia de que ninguém poderia ter a genialidade do compositor austríaco apenas suando as mangas. Mas, afinal, será que Mozart também não trabalhou duro para se tornar quem foi?

“É bom lembrar que Mozart viveu numa época em que não existia a infância como hoje a conhecemos”, diz a pesquisadora da Unicamp Cláudia Lemos, especialista em aquisição da linguagem. Ela diz que quem conhece a biografia do compositor austríaco sabe que ele era tratado como um músico desde os primeiros anos. “Ninguém dizia: vá com calma, ele não passa de uma criança”, diz Claudia. “E é claro que isso teve um preço para ele.” Mozart morreu precocemente, aos 35 anos, depois de uma vida cheia de conturbações emocionais.

Enquanto o safári genético que corre solto nos dias de hoje não captura o gene da inteligência (e não é razoável crer que a inteligência se resuma a isso), a extraordinária mente dos bebês pode ajudar os adultos a questionar seus próprios métodos de aprendizado, aquilo que chamamos de ciência. Afinal, como diz Meltzoff, cientistas nada mais são do que pessoas pagas para reproduzir na vida adulta o trabalho que os bebês realizam todos os dias: explorar o mundo à nossa volta com mente aberta e sede de conhecimento.

 

 

 

Fonte:Rodrigo Cavalcante