Podemos nos dar ao luxo de ser ricos?

Podemos nos dar ao luxo de ser ricos?

Artigo do professor aposentado Peter Holway, em que analisa o crescimento econômico, o crescimento populacional e o alto consumo mundial.


Você está feliz da vida sentado em sua sala e de repente percebe que começa a cair água do teto. A torneira do banheiro deve ter ficado aberta. Você: a) nem liga, pois o piso da sala não ficou muito molhado; b) começa a enxugar com um paninho; c) fecha a torneira. É mais ou menos assim que estamos tratando as graves questões do meio ambiente. Os recursos naturais diminuem dramaticamente e um desastre mundial parece iminente, mas não somos capazes de fechar a torneira.

Vamos encarar a questão: estamos em crise agora, e não estivemos há 100 anos, porque agora consumimos mais. Por dois motivos: somos mais gente, e somos muito mais ricos. Dentro de sessenta anos a população mundial terá dobrado, e o crescimento econômico, a uma média de 2% ao ano, praticamente quadruplicará nossa renda per capita. Como nossa capacidade de consumo é o produto desses dois fatores, caminhamos para uma capacidade de consumir oito vezes maior, nos próximos sessenta anos.

Ainda assim, há quem duvide de que tenhamos razões para nos preocupar e quem pense solucionar o problema reciclando vidro e papel, usando lâmpadas de menor consumo de energia ou restringindo o uso de automóveis. Tais medidas podem diminuir o consumo em 10%, se tanto; como resposta a um aumento de 800%, representa apenas tentar enxugar a água que cai do teto com um paninho.

Para fechar a torneira devemos encarar os dois problemas ao mesmo tempo: o crescimento da população e o seu enriquecimento global. Estabilizar a população e permitir que o padrão de vida continue subindo não adianta. Duplicar o padrão de vida seria tão prejudicial ao meio ambiente quanto duplicar a população.

Dos dois, o problema mais complicado é o do crescimento econômico, pois coexistem no mundo a opulência e a pobreza; é preciso encontrar um meio de deter o crescimento econômico não para todos, mas apenas para os que já possuem riqueza suficiente. Para isso, devemos estimar duas grandezas-chave. A primeira é o consumo máximo sustentável (e sua conseqüente taxa de desperdício) que a Terra pode suportar.

A segunda é o nível de consumo capaz de satisfazer as necessidades básicas de toda a população. Um cálculo razoável permite imaginar 1 bilhão de pessoas no mundo desenvolvido, com nível de vida 15 vezes maior que o dos 4 bilhões que vivem no mundo subdesenvolvido.

Para facilitar o raciocínio, vamos chamá-los ricos e pobres. Tomando como unidade o consumo anual de 1 bilhão de pobres, teríamos um consumo mundial de 4 unidades para os pobres e 15 unidades para os ricos. Por esse cálculo, torna-se claro que os pobres consomem menos que o mínimo aceitável, enquanto os ricos consomem muito mais.

Assim, a cifra que precisamos encontrar situa-se entre 1 e 15 unidades por bilhão de pessoas.

Os que ganhavam um salário considerado médio para os padrões britânicos nos anos 60 - quando o nível de vida era metade do atual - talvez se lembrem de que tínhamos tudo que era considerado essencial. Esse cálculo grosseiro situa nosso mínimo entre 1 e 7.

Vamos simplificar ainda mais e considerar o mínimo como sendo 4 unidades por bilhão de pessoas. Isso significaria quadruplicar a capacidade de consumo dos pobres, no momento em que o seu número dobraria; seu consumo, portanto, chegaria a 32 unidades (8 bilhões de pessoas com 4 unidades de consumo por bilhão). Mesmo que os ricos ficassem parados na sua riqueza atual, o consumo total subiria para 47 unidades - 2,5 vezes o valor atual.

Ou seja: para alcançar uma sociedade estável, precisaríamos reduzir, e bastante, o nível de vida dos ricos. Isso exige mudanças, sem dúvida difíceis de conseguir, no nosso modo de pensar, redefinindo termos como "crescimento econômico", "desenvolvimento" e "produção de riqueza".
Nessa sociedade a propriedade dos bens não mais conferiria status e o consumo desenfreado seria considerado crime. Para chegar a ela, alguns propõem uma política de incentivos, como a decretação de pesados impostos ambientais. Nada disso funcionará, pois os problemas decorrem, em boa parte, de nossa insistência em agir tendo em vista apenas nossos interesses materiais imediatos.

Mas não é só. Eles decorrem também de um sistema econômico que parece incapaz de sobreviver à falta de crescimento econômico. Aqui na Grã-Bretanha, por exemplo, o nível de vida vinha crescendo incessante-mente desde o final da guerra, em 1945, mas agora estabilizou-se.

Ele está tão alto quanto sempre, mas, como o capitalismo de mercado não funciona sem crescimento, não expandimos o nível de trabalho e a riqueza, e como conseqüência temos mais de 3 milhões de desempregados, pedintes nas ruas e até uma queda no nível de expectativa de vida.

Portanto, precisamos de um novo sistema econômico, capaz de sobreviver sem crescimento. Não conseguiremos formar uma sociedade estável se continuarmos a agir baseados no princípio de que todos, ricos e pobres, devem e podem consumir o máximo. A única maneira de sobrevivermos é reduzir o consumo. Ou, voltando à figura inicial, fechar a torneira.
 

Fonte:Por Peter Holway