Separar atrasados é visto como “retrocesso” ou “mal necessário”

Separar atrasados é visto como “retrocesso” ou “mal necessário”

Alunos serão retirados das turmas em que estão para formar 2 mil salas de recuperação na rede estadual paulista

 

O anúncio de que a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo vai formar turmas diferenciadas para alunos atrasados do ensino médio e fundamental 2 dividiu especialistas na área. Todos concordam que há perdas para os estudantes que deixarem suas salas, porém alguns acham que os ganhos compensarão a estigmatização e o conteúdo perdido.

O secretário de Educação do Estado, Herman Voorwald, afirmou na quarta-feira que 2 mil salas de recuperação serão formadas com alunos com dificuldades diagnosticados durante este mês. Eles abandonarão suas salas a partir de abril e frequentarão turmas de até 20 alunos só com professores de língua portuguesa ou matemática.

Para a pesquisadora e autora especializada em avaliação educacional Lea Desprebitelis, a separação dos estudantes com deficiência no aprendizado incentiva o bullying e os priva do conteúdo que deveria ver na sala regular. “É um retrocesso e não garante que a recuperação vá funcionar”, diz. Ela conta que nos anos 60, quando a prática era comum, chegou a ser professora de uma turma de recuperação. “Quando eu passava com os alunos já diziam: lá vão os burros. Imagine hoje em dia o que vai ser”, comenta ela.

A educadora lembra que São Paulo adotou a progressão continuada e deixou de lado a reprovação exatamente para evitar que repetentes fossem estigmatizados e deixassem de ir à escola. “O mesmo pode acontecer agora.”

Outro problema seria a ausência do conteúdo da série em que o estudante está matriculado durante o tempo em que ele estiver na recuperação. “Provavelmente, no ano seguinte ele vai demandar outra recuperação, agora do conteúdo que a turma acabou de ter.”

Para Lea, o certo seria focar na “essência do problema”, que julga ser a falta de capacidade da escola de lidar com estudantes com habilidades e formas de aprender diferentes. “Se na recuperação forem dar aquela mesma aula, vão separá-los à toa. Desde o começo poderia haver formas diferentes de atender cada necessidade mesmo com sua turma regular.”

O conselheiro estadual de Educação e diretor do colégio particular Bandeirantes, Mauro Aguiar, concorda que pode haver diminuição da autoestima, mas acha que é um mal necessário. “Não vejo possibilidade de recuperar estes alunos de forma diferente. E precisa recuperar”, afirma.

Ele admite que no colégio que dirige a recuperação ocorre no contraturno e é direcionada conforme as disciplinas em que são diagnosticadas as dificuldades, mas acha que a questão financeira inviabiliza o mesmo método na rede estadual. “O aluno do Bandeirantes tem condições de voltar em outro horário ou mesmo de almoçar na escola. O estudante de escola pública muitas vezes tem que trabalhar ou não pode retornar e o único jeito é dar esta aula no horário em que ele está matriculado”, diz.

De acordo com o secretário Voorwald, em algumas diretorias de ensino, mais da metade dos matriculados em salas de recuperação no contraturno não compareciam.

Outra pedagoga especializada em bullying, Cleo Fonte, diz que a separação tende a facilitar o rótulo, mas para ela uma boa preparação dos professores e gestores junto aos estudantes pode evitar consequências. “Claro que os adolescentes podem apontar a classe e julgar, mas se foi diagnosticado que esta é uma solução, não pode deixar de haver recuperação. Então, a saída seria que a equipe conversasse sobre isso com os demais alunos e falasse do lado bom.”

 

Fonte: IG