Sobrevoar é preciso

Sobrevoar é preciso

De helicóptero sobre a selva de pedra ou de balão nos céus do interior, dois jeitos diferentes de conhecer São Paulo

 

 

A maior frota urbana de helicópteros do mundo (Nova York e Tóquio já ficaram para trás) cruza os céus de São Paulo em quase 200 voos diários - cerca de 70 mil por ano. Equipes de TV e da polícia, pacientes de UTI, celebridades e empresários são alguns dos passageiros que encurtam caminho pelos ares, longe do tráfego pesado de automóveis. Privilégio de uns, necessidade de outros, os helicópteros transportam agora gente que só quer ver São Paulo do alto. "Antigamente, apenas quem tinha muito dinheiro subia neles", diz Antônio Brice dos Santos, dono da empresa Andanças (2945-8828, www.andancastur.com.br; reservar com 48 horas de antecedência; Cc: A, D, M, V; Cd: todos), que realiza voos turísticos, diurnos ou noturnos, há quatro anos na cidade. a diversão a bordo do modelo Robinson R44 dura entre 30 minutos e uma hora e não sai exatamente barata (para o voo mais curto, R$ 850, valor divisível por até três pessoas), mas a vista da metrópole lá de cima impressiona.

Do Campo de Marte, em Santana, a aeronave decola para um tour customizado pelo cliente, geralmente sobre os arranhacéus do "paliteiro" - apelido dado pelos pilotos à selva de pedra paulistana. "As pessoas também pedem muito para passar em cima de suas casas. mas, se ela ficar longe do centro da cidade, só conseguimos no passeio maior", diz Brice. A até 220 km/h, em 30 minutos é possível percorrer as Marginais, o Ibirapuera, a Paulista e o Centro, incluindo cartões-postais como a Catedral da Sé, o Museu do Ipiranga, o Theatro Municipal, o Terraço Itália, a Torre do Banespa. Não dá enjoo, só um pouco de medo. O helicóptero, que passa rente aos prédios e balança a apenas 150 metros do chão, parece mais vulnerável que teco-teco. Por causa do barulho da hélice, a comunicação interna é feita por microfone e grandes headphones. O piloto funciona como um guia, identificando cada ponto turístico. "Está vendo aquele prédio enorme ali na Paulista? É o Conjunto Nacional..."

Aos poucos, você controla a emoção e se dá conta da paisagem, coalhada de helipontos. O skyline engole a linha do horizonte e revela uma São Paulo imponente, belíssima em sua grandeza, com uma sucessão incrível de edifícios. "Outro dia, um rapaz trouxe a noiva vendada e a pediu em casamento nas alturas", conta Brice. O empresário aproveitou o apelo romântico do passeio para criar, em parceria com os hotéis Sofitel e Blue Tree, um pacote com 17 minutos de voo, jantar, champanhe, pernoite em uma suíte e café da manhã. Mordomia extra: um motorista conduz o carro dos pombinhos do Campo de Marte ao hotel. O programa completo custa r$ 1 890 - mas, dizem, é sorte garantida no amor.

É um pássaro?
Além do balonismo, Boituva virou referência em um esporte aéreo bem mais vertiginoso praticado no Centro Nacional de Paraquedismo (Rodovia Castello Branco, km 116). No salto duplo, em que o praticante pula conectado ao instrutor, a porta do teco-teco se abre, você põe as pernas no vazio (a 4 mil metrinhos), faz um sinal de positivo e... Jerônimoooo!!! São 40 segundos em queda livre, a 200 km/h, até que o paraquedas se abra, prolongando a descida por seis suaves minutos. A aventura pode ser registrada por um cinegrafista aéreo e custa entre R$ 275 e R$ 360, em empresas como a Escola Brasileira de Paraquedismo (11/3522-5797) e a Queda Livre (11/7888-6606). Quase tão radicais quanto o paraquedismo, os voos duplos de asa-delta e parapente são proibidos comercialmente pela legislação aeronáutica brasileira, embora sejam realizados na Pedra Grande, em Atibaia, no Pico Agudo, em Santo Antônio do Pinhal, e no Morro do Voturuá, em São Vicente.

Balão mágico
Saem os prédios, o barulho e a adrenalina dos helicópteros na capital, entram as montanhas, o silêncio e o clima bucólico do interior. Em Boituva, a 116 quilômetros de São Paulo, o sonho de Ícaro é realizado a bordo da mais antiga máquina voadora, o balão. A cerca de 500 metros do chão e a uma velocidade de no máximo 15 quilômetros por hora (embora a recomendação para passeios seja não passar dos 12 km/h), a enorme bolha de náilon sustentada por ar quente desloca-se ao sabor do vento por 30 quilômetros, durante uma hora, antes de ser pousada pelo balonista. No cesto, até 12 pessoas - na minha viagem, seis casais apaixonados - divisam campos, fazendas, estradinhas e um nascer do sol preguiçoso, sob a brisa fresca das 7 da manhã (leve agasalho mesmo no verão). Lado a lado no céu, outros dois balões coloriam o cenário e nos renderam belas fotos. A Aventurar (11/3326-8331, www.balonismo.com.br; R$ 300 por pessoa; Cc: A, D, M, V; Cd: todos) e o Rodrigo do Balão (11/2059-0761, www.passeiodebalao.com.br; R$ 280 por pessoa; Cc: A, D, M, V; Cd: todos) realizam o programa, desde que reservado com pelo menos dois dias de antecedência.

Se a paisagem de Boituva não é a da Capadócia e se o espumante servido no brinde não prima pelo perlage, é justo que se diga que o café da manhã incluído no passeio é farto, caseiro e saboroso, que há boa infra de apoio e que os condutores são balonistas habilitados, colocados à prova em todos os pousos: como o aparelho é guiado pelo vento, nunca se sabe onde ele vai "cair". Cabe ao condutor aterrissá-lo em local seguro - no roteiro que eu fiz, quase em cima de um milharal, ao som de muitas gargalhadas. Uma van acompanha o balão por terra e recolhe os passageiros no local da descida, onde rola o espumante de confaternização. A essa altura, os colegas de voo, desconhecidos antes da decolagem, já eram meus camaradas. Fazer o passeio em grupo, pude perceber, torna o programa mais divertido, e você ainda ganha um desconto de cerca de 10% dos balonistas.

Voar de balão é muito tranquilo, suave, contemplativo. A sensação de leveza substitui a adrenalina, fazendo o passageiro pensar que não está exposto a riscos. Em 30 de outubro de 2010, porém, uma rajada de vento derrubou dois balões em Boituva, fazendo as três primeiras vítimas fatais na história da modalidade no país - entre as quais, dois turistas. Meteorologistas que trabalharam no laudo do acidente concluíram que uma massa de ar quente passou pela região duas horas antes do previsto, impedindo que os pilotos antevissem o problema - e abortassem a decolagem. Por isso (e cada vez mais), a realização do voo está sujeita a condições climáticas favoráveis. Se o tempo não ajudar, fica o consolo: os balões coloridos e o céu azul de Boituva continuarão no mesmo lugar todo fim de semana.


 

Fonte: Laura Capanema